Antologias VII
Neste poema usei o nome Rita J. Lobo.

Inclemente
A pele tornou-se rugosa, grossa, enrugada. Mas isso ela até suportava
O que lhe doía verdadeiramente era a sensação quando lhe tocava;
Mole, parecia viscosa ou esponjosa enfim, estragada
Em que rapidamente se transformava
Com o tempo, a outrora tez lisa e acobreada.
Na ideia ainda guardava, impensadamente
A imagem que tinha aquando dos seus virtuosos vinte anos,
No entanto o espelho berra impunemente,
De forma fria e displicente:
Estás tão enganada! E ele não mente…
Ela fica destroçada, meio dormente,
Virar-lhe as costas não adianta nada!
Ela duvida. Sente-se zangada com o mentiroso espelho. Ele mente!
Diz isso apenas com a voz do coração,
Não o diz com a voz da mente, ela sabe que o espelho tem razão.
Quando lhe volta as costas, cruza os braços sobre si,
Num abraço de conforto,
Mas nesse involuntário gesto, e quando as mãos agarram os braços
Também elas são cruéis
Ao sentirem o que deles restou.
O corpo cedeu ao tempo, mas não a sua mente.
Antes assim! Pensa ela num momento de aceitação.
O tempo foi abusivamente rápido e inclemente.
A mente ainda jovem mantém-se saudável, daí, aquela dor intolerável
De sentir o corpo inevitavelmente transformado e desgastado.
E é também por essa razão
Pelo tal momento de aceitação,
Que em todos os seus dias existe um agradecimento.
E com os olhos confusos, procura no firmamento
Uma razão, mas também um reconhecimento.
Rita J. Lobo
